Cultura, pensamento
e tradição judaica
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Da bênção e da maldição às três festas de peregrinação, Reê reúne orientações que moldariam a vida de Israel na Terra: culto, alimentação, dízimos, cuidado com os necessitados e libertação dos servos. A leitura acompanha como essas leis formam um percurso único no discurso de Moisés.
Os discursos finais de Moisés, já desenvolvidos em passagens como a Parashá Vaetchanan, avançam agora para as normas que orientarão Israel quando deixar o deserto. A Parashá Reê está no livro de Devarim, Deuteronômio, e abrange Devarim 11:26–16:17, quando o povo ainda se prepara para atravessar o Jordão.
Neste resumo da Parashá Reê leitura começa colocando diante de Israel a bênção e a maldição e, a partir dessa escolha, organiza diferentes dimensões da vida na Terra. O serviço no lugar escolhido pelo Eterno, a rejeição da idolatria, a alimentação, os dízimos, o cuidado com os necessitados e as festas de peregrinação aparecem como partes de uma mesma responsabilidade coletiva.
Principais pontos da Parashá Reê
- Reê apresenta a bênção e a maldição como caminhos colocados diante de Israel.
- A fidelidade à aliança orienta culto, alimentação e rejeição da idolatria.
- Tsedacá, remissão e libertação protegem pessoas em situação de vulnerabilidade.
- Pessach, Shavuot e Sucot unem memória, gratidão e peregrinação.
Reê significa “vê” e vem da primeira palavra da Parashá. Moisés apresenta diante do povo uma bênção, ligada à observância dos mandamentos, e uma maldição, associada ao abandono do caminho ordenado pelo Eterno. Depois da entrada na Terra, a bênção deveria ser proclamada diante do monte Gerizim, e a maldição, diante do monte Ebal.
Em seguida, Israel recebe a ordem de destruir os lugares, altares e objetos usados pelas nações para a idolatria. O serviço ao Eterno não deveria imitar essas práticas. Sacrifícios, dízimos, ofertas e outros bens consagrados seriam levados ao lugar que o Eterno escolhesse para fazer habitar Seu nome, onde as famílias deveriam comer e se alegrar diante Dele, sem abandonar o levita.
Quando a distância tornasse impossível levar um animal ao lugar escolhido, seria permitido abatê-lo nas cidades para alimentação comum, sem tratá-lo como sacrifício. O sangue, porém, não poderia ser consumido e deveria ser derramado sobre a terra. A passagem integra a alimentação e o serviço sagrado ao conjunto de mandamentos da Torá que estruturaria a vida de Israel na Terra.
A advertência contra a idolatria prossegue com casos em que o desvio poderia surgir de dentro do próprio povo. Mesmo que um profeta ou sonhador apresentasse um sinal, Israel não deveria ouvi-lo se ele conduzisse ao culto de outras divindades. O mesmo princípio aparece diante de um parente ou amigo que tentasse convencer alguém em segredo e no caso de uma cidade que se entregasse coletivamente à idolatria.
A Torá prescreve punições severas para esses casos e exige investigação cuidadosa antes de qualquer ação contra uma cidade acusada. No contexto da Parashá, essas leis protegem a fidelidade exclusiva ao Eterno e impedem que sinais, relações pessoais ou pressões coletivas sejam usados para afastar o povo da aliança.
Depois dessas advertências, Israel é chamado de povo consagrado ao Eterno. A leitura proíbe práticas de luto associadas a outros povos e retoma as distinções alimentares. Entre os animais terrestres, são permitidos os que possuem casco fendido e ruminam; entre os seres aquáticos, os que possuem barbatanas e escamas. A Parashá também enumera aves proibidas e permite as aves consideradas puras.
A vida agrícola na Terra também deveria ser marcada por separações regulares. A décima parte da produção seria levada ao lugar escolhido e consumida ali diante do Eterno. Se o caminho fosse longo demais, o produto poderia ser convertido em dinheiro, usado depois para adquirir alimentos e participar da celebração. Ao fim de cada terceiro ano, o dízimo seria depositado nas cidades para servir ao levita, ao estrangeiro residente, ao órfão e à viúva.
A cada sete anos deveria haver remissão das dívidas entre israelitas. A proximidade desse ano não poderia servir de pretexto para negar ajuda a quem precisasse. Moisés ordena que o coração não se endureça e que a mão permaneça aberta, oferecendo o necessário por meio de dádiva ou empréstimo.
A mesma preocupação aparece nas leis sobre o servo hebreu. Depois de seis anos de serviço, ele deveria ser libertado no sétimo e não poderia partir de mãos vazias. Seu senhor deveria fornecer-lhe bens do rebanho, da eira e do lagar, recordando que Israel também havia sido escravo no Egito e fora libertado pelo Eterno. Se o servo escolhesse permanecer por vínculo com a casa, a decisão seria formalizada conforme o procedimento indicado na Torá.
O bloco termina com as regras sobre os primogênitos machos do gado e do rebanho, consagrados ao Eterno. Eles não deveriam ser usados para o trabalho nem tosquiados. Animais com defeito não seriam oferecidos, mas poderiam ser consumidos nas cidades, desde que o sangue não fosse ingerido.

A parte final da Parashá organiza o calendário das três festas de peregrinação. Em Pessach, Israel deveria recordar a saída do Egito, oferecer o sacrifício pascal no lugar escolhido e comer matsá durante sete dias. Nenhum chametz deveria permanecer visível, e a carne do sacrifício não poderia ser deixada até a manhã seguinte.
Para Shavuot, a contagem de sete semanas começaria quando a foice fosse lançada sobre a plantação. A celebração incluiria uma oferta voluntária proporcional à bênção recebida e deveria reunir filhos, servos, levitas, estrangeiros residentes, órfãos e viúvas. Em Sucot, depois da colheita da eira e do lagar, a alegria se estenderia por sete dias diante do Eterno.
Três vezes ao ano, em Pessach, Shavuot e Sucot, todos os homens deveriam comparecer diante do Eterno no lugar escolhido. Ninguém deveria apresentar-se de mãos vazias, mas cada um levaria uma oferta segundo suas possibilidades e conforme a bênção recebida. Assim, a Parashá termina ligando memória, gratidão, partilha e presença comunitária ao ciclo anual.
A Parashá Reê começa com duas possibilidades colocadas diante de Israel e desenvolve as consequências dessa escolha na vida concreta. O povo deveria rejeitar a idolatria, dirigir seu serviço ao lugar escolhido pelo Eterno, observar limites alimentares e organizar a produção de modo que a celebração não excluísse levitas, estrangeiros residentes, órfãos, viúvas e pessoas necessitadas.
Ao terminar com Pessach, Shavuot e Sucot, a leitura reúne essas orientações no ritmo do calendário. A memória da libertação, o fruto do trabalho e a alegria das festas passam a ser vividos diante do Eterno e compartilhados com a comunidade. A entrada na Terra exigiria, portanto, não apenas ocupá-la, mas ordenar nela uma vida de fidelidade, responsabilidade e gratidão.