Cultura, pensamento
e tradição judaica
Explore artigos, ensaios e perspectivas sobre o universo da cultura judaica.
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Antes de entrar na Terra de Israel, Moisés revisita os acontecimentos que moldaram a geração do deserto. Em Devarim, o episódio dos espiões, os anos de espera e as vitórias sobre Siom e Ogue mostram como memória, advertência e promessa se encontram às margens do Jordão, diante de um novo começo.
É no limiar entre o deserto e a terra prometida que se inicia a Parashá Devarim (דְּבָרִים), abertura do livro de Devarim, ou Deuteronômio. Em Devarim 1:1–3:22, Moisés se dirige à nova geração de Israel nas planícies de Moabe e reorganiza os acontecimentos da jornada como preparação para a entrada na terra.
Ao recordar a partida de Horebe, a nomeação dos juízes, o fracasso dos espiões e as conquistas realizadas a leste do Jordão, Moisés não apresenta apenas uma sequência histórica. Suas palavras transformam o passado em advertência, orientação e responsabilidade para aqueles que atravessariam uma fronteira que ele próprio não atravessaria.

O livro se abre com as palavras: “Estas são as palavras que Moisés falou a todo o Israel”. O cenário é situado após as vitórias sobre Siom e Ogue, quando o povo já se encontrava próximo da entrada na terra. Moisés sabia que não atravessaria o Jordão com a nova geração e, por isso, suas palavras assumem o caráter de despedida, instrução e advertência.
Embora Devarim seja apresentado como um longo discurso de Moisés, o próprio texto afirma que ele falou conforme tudo o que D’us lhe havia ordenado acerca de Israel. A tradição judaica entende, portanto, que suas palavras não constituem uma exposição independente ou pessoal da Torá, mas uma transmissão fiel da vontade divina, adaptada às circunstâncias daquela geração. Essa característica ajuda a compreender o título Mishnê Torá e o lugar singular do livro dentro do conjunto da Torá.
Moisés começa sua retrospectiva lembrando que D’us ordenou a saída de Horebe rumo à terra prometida a Avraham, Yitschak e Yaakov. O período junto ao monte havia chegado ao fim, e Israel deveria avançar para tomar posse da terra destinada aos patriarcas e a seus descendentes.
Em seguida, ele recorda que o crescimento do povo tornou impossível concentrar sozinho todas as responsabilidades da liderança. Foram então designados chefes e juízes, homens sábios e reconhecidos entre as tribos, encarregados de julgar com justiça, sem favoritismo entre ricos e pobres e sem temor diante de pessoa alguma. A recordação retoma um tema já presente anteriormente na Torá: a necessidade de distribuir a responsabilidade pública sem enfraquecer o compromisso com a justiça.
Depois de atravessar o “deserto grande e temível”, Israel chega a Cades-Barneia. Moisés encoraja o povo a subir e tomar posse da terra, sem medo e sem hesitação. É então que os israelitas pedem o envio de homens para reconhecer o território, observar suas cidades e indicar o caminho pelo qual deveriam avançar.
Os enviados, os meraglim, retornam trazendo frutos da terra e reconhecendo sua qualidade. No entanto, a maioria deles também enfatiza as dificuldades da conquista, e o povo escolhe dar ouvidos ao temor em vez de confiar na promessa divina. Apenas Josué e Calebe permanecem firmes. Como consequência, aquela geração é condenada a não entrar na terra, e a tentativa posterior de reverter a sentença por iniciativa própria termina em derrota.
Vale notar que, em Devarim, Moisés apresenta o envio dos espiões como um pedido do povo, enquanto o relato de Bamidbar/Números oferece outra ênfase ao introduzir o episódio por meio de uma ordem divina. Essa aparente tensão entre os dois relatos é discutida pelos comentaristas clássicos, entre eles Rashi, que explicam que D’us permitiu o envio em resposta à iniciativa apresentada pelo povo. Assim, os textos são compreendidos como perspectivas complementares sobre o mesmo acontecimento.
Entre a sentença proferida em Cades-Barneia e a retomada efetiva da marcha passam-se trinta e oito anos. Durante esse período, morre a geração dos homens de guerra que havia saído do Egito e que fora condenada a não entrar na terra. Somente então Israel volta a avançar em direção ao Jordão.
Ao retomar a viagem, o povo recebe instruções precisas sobre os limites de sua ação. Israel deve contornar Seir sem provocar os descendentes de Esaú e não deve guerrear contra Moabe ou Amom, nem tentar tomar posse de suas terras. A Parashá deixa claro que nem toda conquista era permitida: certos territórios haviam sido destinados por D’us a outros povos, e Israel deveria respeitar essas determinações.
O cenário muda quando Israel se aproxima do território de Siom, rei de Hesbom. Moisés envia uma proposta de passagem pacífica, comprometendo-se a seguir pela estrada e a pagar pelos alimentos e pela água consumidos. Siom, porém, recusa a passagem e sai à guerra contra Israel. D’us entrega o rei e seu povo nas mãos dos israelitas, que conquistam suas cidades e tomam posse de seu território.
Em seguida, Ogue, rei de Basã, também sai à guerra. Moisés é instruído a não temê-lo, pois seu destino seria semelhante ao de Siom. Israel derrota Ogue, conquista suas sessenta cidades fortificadas e consolida sua presença a leste do Jordão. Essas vitórias possuem importância estratégica e simbólica: demonstram à nova geração que a conquista da terra não dependia apenas de força militar, mas do cumprimento da promessa divina.
As terras tomadas de Siom e Ogue são distribuídas às tribos de Rúben, Gade e à meia tribo de Manassés. Essa concessão, porém, é acompanhada de uma condição: os homens aptos para a guerra deveriam atravessar o Jordão com as demais tribos e ajudá-las na conquista de seus próprios territórios antes de retornar às suas famílias e propriedades.
Moisés então se dirige a Josué e o encoraja a não temer os povos que ainda enfrentaria. As derrotas de Siom e Ogue serviriam como sinal do que D’us faria aos demais reinos. Desse modo, a Parashá começa também a preparar a transição de liderança, conduzindo o leitor do passado de Moisés ao futuro que seria confiado a Josué.

Devarim é uma abertura solene. Moisés não apenas enumera acontecimentos passados, mas os reorganiza diante de um povo que está prestes a atravessar o Jordão. A lembrança do fracasso dos espiões, dos anos de espera e das vitórias sobre Siom e Ogue transforma a memória do deserto em instrução para o futuro. A nova geração recebe a terra, mas também recebe a responsabilidade de aprender com os erros daqueles que vieram antes.
A Parashá Devarim é sempre lida no Shabat Chazon, o Shabat que antecede o jejum de Tishá BeAv. A tradição rabínica percebe um eco temático entre o lamento de Moisés “Como poderei carregar sozinho o vosso peso?”e a linguagem do livro de Eichá, lido em Tishá BeAv. Trata-se de uma associação interpretativa da tradição, e não de uma afirmação explícita do texto bíblico. Ainda assim, ela ilumina o lugar particular desta Parashá no calendário judaico.
Assim, Devarim se encontra entre dois movimentos: a recordação do que foi perdido e a preparação para o que ainda poderia ser construído. O livro se inicia olhando para trás, mas sua finalidade é conduzir Israel adiante. Ao abrir a última etapa da Torá, a Parashá transforma a memória em responsabilidade, a advertência em aprendizado e a promessa em chamado para uma nova geração.