Shaar Editora Blog - O Mês de Tamuz

O mês de Tamuz: história, significado e tradições no calendário judaico

Entre o jejum de 17 de Tamuz e o início das Três Semanas, este mês ocupa um lugar singular na experiência judaica do tempo. Conheça sua história, suas tradições e os ensinamentos que transformam a memória em reflexão espiritual.

Tamuz ocupa um lugar singular no calendário judaico, unindo contagem calendárica, memória histórica e leitura espiritual. Entre o 17 de Tamuz, as Três Semanas e os sinais de transformação dentro do luto, o mês articula disciplina, lembrança coletiva e esperança.

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O que é o mês de Tamuz no calendário judaico

Tamuz é o quarto mês do calendário eclesiástico judaico, contado a partir de Nissan, o mês da saída do Egito. No calendário civil, que começa em Tishrei, Tamuz ocupa a décima posição. Essa dupla contagem reflete duas lógicas distintas: a contagem religiosa toma como ponto de partida o mês do Êxodo, conforme indicado em Êxodo 12:2, onde Nissan é chamado de “primeiro dos meses”; a contagem civil parte de Tishrei, mês associado à criação do mundo e à celebração de Rosh Hashaná.

O mês tem invariavelmente 29 dias e corresponde, de forma aproximada, ao período entre junho e julho no calendário gregoriano. Essa correspondência varia um pouco a cada ano porque o calendário judaico é lunissolar, não puramente lunar: os meses seguem o ciclo da lua, mas o calendário é periodicamente ajustado ao ciclo solar por meio do Ibbur (intercalação), que adiciona um mês extra a cada dois ou três anos para manter as festas em suas estações corretas.

Tamuz ocorre no verão do hemisfério norte, próximo ao seu início astronômico. Na tradição judaica, está associado ao signo zodiacal de sartan (caranguejo), que corresponde a Câncer. O Midrash relaciona esse signo a Moisés, que, ainda bebê, foi escondido nas águas do Nilo — uma associação simbólica entre o caranguejo, criatura aquática, e essa fase da vida de Moisés. Tamuz é também o mês em que se inicia o período de luto conhecido como Bein ha-Metzarim (“entre as angústias”), que começa no 17º dia de Tamuz e se estende até o 9º dia de Av.

Linha de base calendárica

A contagem religiosa dos meses começa em Nissan, em referência ao êxodo do Egito. Já a contagem civil começa em Tishrei, mês em que se celebra o início do ano judaico. Antes do exílio babilônico, os meses eram designados principalmente por números ordinais — “o mês primeiro”, “o segundo mês” — como aparece em diversas passagens do Tanakh, entre elas Gênesis 7:11 e Êxodo 12:2. Tamuz se encaixa nas duas lógicas de contagem de forma diferente, o que explica por que é chamado de quarto mês em um sistema e décimo no outro.

O início de Tamuz, como o de todo mês judaico, é marcado pelo Rosh Chodesh (“cabeça do mês”), a celebração do novo mês lunar. Quando o mês anterior, Sivan, tem 30 dias — já que o calendário fixo intercala meses de 29 e 30 dias —, tanto o último dia de Sivan quanto o primeiro de Tamuz são observados como Rosh Chodesh.

A origem do nome e o pano de fundo histórico

O nome “Tamuz” não é de origem hebraica. Ele reflete a influência da cultura babilônica sobre o calendário judaico durante o período do exílio. O nome do mês deriva do mês babilônico Araḥ Dumuzu, que por sua vez homenageava Dumuzid, divindade mesopotâmica associada à fertilidade e à agricultura.

A única referência bíblica a essa divindade aparece em Ezequiel 8:14, onde o profeta descreve mulheres chorando por Tamuz junto ao Templo. Esse versículo é o ponto de partida para entender por que um mês do calendário judaico carrega um nome de origem pagã — uma origem que gerou, ao longo da tradição rabínica, debate sobre o que esse nome de fato implica, tratado nas próximas seções.

Nome, exílio e assimilação linguística

A adoção de nomes como Tamuz ocorreu no contato com a cultura babilônica durante o exílio, e a tradição rabínica incorporou esses nomes como designações calendáricas, sem que isso representasse adesão ao culto que os originou.

Leitura rabínica do nome

Rashi, comentarista medieval, oferece uma explicação que desvincula o nome de sua origem idolátrica: para ele, “Tamuz” significa “aquecimento”, numa alusão a um forno em brasa. É um nome apropriado, segundo essa leitura, para o mês que ocorre no auge do verão. Essa interpretação convive com a referência histórica babilônica, mas separa o uso calendárico do significado original ligado ao culto pagão. A tradição rabínica, portanto, trata o nome como designação de tempo, não como reconhecimento da divindade que o originou.

O 17 de Tamuz: o jejum e as cinco tragédias

O dia 17 de Tamuz é conhecido como Shiv’ah Asar b’Tammuz, um jejum que marca o início das Três Semanas de luto. Diferente de outros jejuns do calendário judaico, este não comemora um único evento, mas cinco tragédias distintas, todas listadas na Mishná, tratado Ta’anit 4:6.

  • Moisés quebrou as Tábuas da Lei ao ver o povo adorando o bezerro de ouro.
  • O sacrifício diário foi interrompido durante o cerco ao Primeiro Templo.
  • A Torá foi queimada por uma figura identificada na Mishná como Apostomus, cuja identidade exata é incerta nas fontes.
  • Um ídolo foi colocado no Santuário.
  • As muralhas de Jerusalém foram rompidas pelos romanos, durante o cerco de Tito ao Segundo Templo.
Muralhas de Jerusalém em contexto histórico de luto e memória.

É importante distinguir fato de tradição aqui: o jejum de 17 de Tamuz é de instituição rabínica (mi-derabbanan), não um mandamento explícito da Torá. A referência em Zacarias 8:19 ao “jejum do quarto mês” é uma passagem profética, não uma legislação direta. A prática de jejuar nesse dia se consolidou ao longo do tempo, com base na tradição oral registrada na Mishná e no Talmude.

Por que a tradição fixa o 17º dia

Há uma divergência textual interessante: Jeremias 39:2 registra que a ruptura das muralhas de Jerusalém, no contexto da destruição do Primeiro Templo, ocorreu no 9º dia do quarto mês, não no 17º. A explicação tradicional, presente no Talmude, é que o 17º dia foi escolhido porque um evento semelhante — a ruptura das muralhas durante o cerco de Tito ao Segundo Templo — ocorreu nessa data. O jejum, assim, tornou-se um memorial conjunto para as duas destruições.

O que o dia comunica

O 17 de Tamuz funciona como ponto de partida para um processo de cheshbon hanefesh (literalmente “balanço da alma”, um exame de consciência), que se estende ao longo das Três Semanas. Não é apenas a lembrança de eventos isolados, mas o início de um período voltado à memória coletiva e à autoavaliação, que culmina no 9 de Av, data da destruição de ambos os Templos.

As Três Semanas: progressão do luto e práticas observadas

O período entre o 17 de Tamuz e o 9 de Av é chamado de Bein ha-Metzarim, expressão que remete a Lamentações 1:3. Ao longo dessas três semanas, as restrições de luto se intensificam progressivamente, atingindo o ponto mais grave nos dias que antecedem o 9 de Av.

Já a partir do 17 de Tamuz, segundo o Shulchan Arukh, Orach Chaim 551, observam-se restrições como:

  • Suspensão de casamentos.
  • Restrição a cortes de cabelo e barba.
  • Evitar banhos de prazer ou lazer.
  • Evitar audição de música instrumental.
  • Em alguns costumes, evitar o uso de roupas recém-lavadas.

A abstinência de carne e vinho, por sua vez, pertence a uma etapa posterior do período: começa em Rosh Chodesh Av, o início do mês de Av, quando as restrições se intensificam nos chamados “Nove Dias” que antecedem o 9 de Av.

Diferenças entre as comunidades

As comunidades asquenazitas costumam observar a restrição de carne e vinho já a partir do próprio Rosh Chodesh Av. As comunidades sefarditas, em geral, adiam essa restrição para a semana em que cai o 9 de Av. Essa diferença é relevante para quem busca orientação prática: não existe um único padrão de observância para todo o período, e as variações entre comunidades já existiam mesmo na época do Talmude.

Relação com o 9 de Av

As Três Semanas funcionam como uma preparação gradual para o Tish’ah b’Av (9 de Av), o dia mais grave do calendário de luto judaico. A escalada das restrições reflete essa aproximação: o luto, que começa de forma mais contida no 17 de Tamuz, vai se tornando mais presente — sobretudo a partir de Rosh Chodesh Av — até o ápice no 9 de Av.

O significado espiritual do mês: luto, desafio e transformação

Tamuz não deve ser lido apenas como um mês de tragédias. Fontes cabalísticas, como o Zohar, ensinam que os primeiros três meses do ano estão associados a Abraão, Isaac e Jacó, enquanto Tamuz e Av — o quarto e o quinto meses — são descritos como “tomados” por Esaú. Segundo essa tradição mística, essa associação ajuda a explicar por que ambos os Templos foram destruídos nesse período do calendário — uma leitura simbólica do Zohar, não uma afirmação histórica ou genealógica.

Essa mesma tradição descreve Tamuz, junto a Av, Tevet e Shevat, como um período em que forças de julgamento estão mais presentes. Isso não significa, porém, que o mês seja apenas negativo.

O lado positivo dentro do período

A leitura cabalística e hassídica enfatiza que Tamuz é também um mês de potencial transformação. A ideia central é que o negativo pode ser convertido em positivo: o mesmo período de julgamento abre espaço para autoexame e elevação espiritual. Essa leitura conecta-se a temas mais amplos de exílio e retorno, presentes também em outras passagens da história judaica de memória e retorno.

Dias de luz dentro de Tamuz

O 3 de Tamuz é hoje conhecido, sobretudo, como a data de falecimento do sétimo Rebbe (líder espiritual da dinastia chassídica de Lubavitch) de Lubavitch, Rabino Menachem Mendel Schneerson. Foi também nessa data, em 1927, que o sexto Rebbe, Rabino Yosef Yitzchak Schneersohn, foi enviado ao exílio interno na União Soviética, após ter sua sentença de morte comutada em razão de pressão internacional — parte das perseguições soviéticas a líderes religiosos judeus praticantes no período. Sua libertação efetiva ocorreu poucos dias depois, em 12 e 13 de Tamuz, data celebrada até hoje pela comunidade Chabad-Lubavitch como dia de libertação. Há ainda o 14 de Tamuz, antigamente celebrado em comemoração à vitória dos fariseus sobre os saduceus. Esses marcos mostram que Tamuz não pode ser reduzido a um mês de puro infortúnio.

Como aplicar Tamuz hoje: regras práticas

No 17 de Tamuz, adultos saudáveis a partir da idade de bar ou bat mitzvah se abstêm de comer e beber do amanhecer ao anoitecer. Gestantes, lactantes e pessoas doentes podem ser isentas do jejum, mas devem consultar um rabino para avaliar a situação específica.

Quando o 17 de Tamuz cai no Shabat, o jejum é adiado para o domingo seguinte, já que jejuns públicos não são observados no dia de descanso semanal.

O dia inclui a recitação de Selichot, orações penitenciais, e do Avinu Malkeinu nas preces matutinas e vespertinas. A leitura da Torá no dia é de Êxodo 32:11–14 e 34:1–10, trechos que tratam do episódio do bezerro de ouro e do perdão concedido ao povo. A haftará especial é Isaías 55:6–56:8.

Durante as Três Semanas, as restrições não são idênticas em todas as comunidades nem ao longo de todo o período. Casamentos, cortes de cabelo e música já são restritos desde o 17 de Tamuz; carne e vinho entram na lista apenas a partir de Rosh Chodesh Av, com pequenas variações entre asquenazitas e sefarditas. Nas duas tradições, porém, o período mantém o mesmo eixo: o exame de consciência que começa no 17 de Tamuz e o lembrete, nos dias de libertação do mês, de que mesmo dentro do luto há espaço para transformação.

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A Shaar Editora é uma editora dedicada à publicação de obras judaicas, traduções e conteúdos que aproximam leitores da literatura, pensamento e espiritualidade judaica.

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