Cultura, pensamento
e tradição judaica
Explore artigos, ensaios e perspectivas sobre o universo da cultura judaica.
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Uma investigação genética de mais de vinte anos identificou traços compatíveis com ascendência judaica e situou Cristóvão Colombo no Mediterrâneo espanhol. Seus escritos, sua linguagem e suas relações completam o retrato de um navegador de origem sefaradita, diretamente ligado à região de Valência.
Na manhã de sexta-feira, 3 de agosto de 1492, três embarcações deixaram a barra de Saltés, diante de Palos de la Frontera, e seguiram em direção às Ilhas Canárias. Cristóvão Colombo registrou a partida de maneira breve em seu diário:

“Partimos sexta-feira, três dias de agosto de 1492, da barra de Saltés, às oito horas. […]”
A anotação marca o início de uma viagem que mudaria a história. Contudo, por trás da data conhecida havia outra história em curso. Em 31 de março daquele ano, os Reis Católicos haviam promulgado o Decreto de Alhambra, que obrigava os judeus a abandonar seus reinos ou aceitar a conversão. Quando as caravelas partiram, famílias sefaraditas deixavam para trás casas, comunidades e séculos de vida judaica na Península Ibérica.
A proximidade entre esses acontecimentos sempre foi impressionante. Hoje, ela se tornou essencial para compreender o próprio homem que partiu da Espanha. Depois de mais de vinte anos de investigação, os resultados divulgados pela equipe da Universidade de Granada situaram Colombo no Mediterrâneo ocidental e identificaram traços compatíveis com uma origem judaica. A vertente sefaradita ligada ao Mediterrâneo espanhol, especialmente à região de Valência, emergiu como a conclusão mais coerente.
O resultado genético não surgiu isoladamente. Ele se uniu a documentos, particularidades linguísticas, símbolos presentes nas cartas e relações históricas que já aproximavam Colombo do universo dos judeus e conversos da Península Ibérica. A genética trouxe uma nova base para a leitura de indícios que atravessaram quase um século de pesquisas e revelou, sob a identidade pública do navegador, os sinais persistentes de uma origem ocultada.
Durante séculos, diferentes lugares disputaram a origem de Cristóvão Colombo. Gênova tornou-se a versão mais conhecida, mas Portugal, Galícia, Catalunha, Valência, Maiorca e outras regiões também reivindicaram o navegador a partir de documentos, hábitos linguísticos e lacunas de sua biografia. O próprio Colombo pouco revelou sobre sua infância e sua família, contribuindo para que sua identidade permanecesse cercada de perguntas.
Em 2003, uma equipe liderada por José Antonio Lorente Acosta, catedrático de Medicina Legal e Forense da Universidade de Granada, recebeu autorização para exumar os restos atribuídos a Colombo e a seu filho Hernando, preservados na Catedral de Sevilha. A investigação também examinou ossos de Diego Colombo, irmão do navegador, provenientes da Cartuxa de Sevilha. O material permaneceu protegido durante anos, à espera de técnicas capazes de extrair informações de amostras tão antigas e degradadas.
Em 2021, a Universidade de Granada anunciou a fase final da investigação, realizada com a colaboração de laboratórios internacionais de identificação genética. O projeto partiu de aproximadamente 25 possibilidades de origem e concentrou-se depois nas oito teses consideradas mais plausíveis. Os resultados foram apresentados em 2024 no documentário da RTVE Colón ADN: su verdadero origen.
Lorente explicou que o DNA recuperado diretamente de Colombo era muito parcial, mas que havia material suficiente para comparação. O DNA de Hernando, mais bem preservado, tornou-se decisivo. Segundo o pesquisador, tanto no cromossomo Y quanto no DNA mitocondrial do filho foram identificados traços compatíveis com origem judaica. A análise situou a procedência familiar no Mediterrâneo ocidental e aproximou a investigação do espaço mediterrânico espanhol, das Ilhas Baleares e dos territórios que pertenciam à Coroa de Aragão.
O resultado não serviu apenas para acrescentar uma nova nacionalidade à lista. Ele deu fundamento genético a uma leitura muito mais profunda: Colombo descendia do universo sefaradita e pertencia a uma família que, num ambiente de conversões forçadas e perseguição inquisitorial, tinha motivos concretos para proteger ou reconstruir sua identidade pública.

Entre as teses examinadas pela investigação estava a do pesquisador catalão Francesc Albardaner i Llorens, que identificou Colombo como integrante de uma família sefaradita ligada à produção e ao comércio da seda em Valência. A profissão ajuda a situá-lo em um ambiente econômico no qual famílias judaicas e conversas tiveram participação expressiva, enquanto a localização o coloca dentro do mundo linguístico e cultural da Coroa de Aragão.
Essa origem também oferece uma explicação para a reserva de Colombo sobre seu passado. Na Espanha dos séculos XV e XVI, a conversão ao cristianismo não eliminava automaticamente a suspeita lançada sobre os antigos judeus e seus descendentes. Os cristãos-novos podiam continuar sujeitos à investigação, à denúncia e ao confisco. Em um mundo marcado pela vigilância e pelos mecanismos da Inquisição, ocultar a origem familiar podia representar não apenas uma escolha social, mas uma medida de sobrevivência.
Muito antes dos resultados genéticos, a linguagem do navegador já havia conduzido pesquisadores ao mesmo espaço cultural. Em 2009, a professora Estelle Irizarry publicou El ADN de los escritos de Cristóbal Colón. O título empregava a palavra DNA de maneira metafórica. Irizarry procurou nos textos hábitos linguísticos persistentes, construções sintáticas e escolhas vocabulares capazes de revelar a formação de quem os escreveu.
Sua análise identificou o catalão como língua de base de Colombo, acompanhada de traços relacionados ao judeu-espanhol, também chamado ladino. Esses elementos aproximavam seus escritos do espaço da Coroa de Aragão e das comunidades sefaraditas do Mediterrâneo espanhol. Décadas mais tarde, a investigação dos ossos chegaria à mesma região geográfica por um caminho inteiramente diferente.
É justamente essa convergência que torna a origem valenciana tão relevante. O estudo linguístico não depende do DNA, e o DNA não depende da interpretação dos textos. Duas linhas independentes alcançaram o mesmo ambiente cultural e geográfico. A origem sefaradita, portanto, oferece uma chave coerente para compreender diferentes aspectos da vida de Colombo.
Os indícios da ascendência judaica de Colombo não começaram com a genética. Em 1932, o historiador britânico Cecil Roth reuniu em A History of the Marranos alguns dos sinais que se tornariam recorrentes nessa investigação. Roth observou fórmulas, símbolos e particularidades documentais que relacionou à tradição judaica.
Entre esses elementos estão as letras hebraicas bet e hei, ב״ה, encontradas no alto de cartas dirigidas por Colombo a seu filho Diego. A fórmula foi interpretada como abreviação de be’ezrat HaShem, “com a ajuda de Deus”, expressão tradicionalmente colocada no início de documentos e correspondências judaicas. Roth também chamou atenção para o emprego da expressão “Segunda Casa” em referência ao Segundo Templo de Jerusalém e para a assinatura enigmática que Colombo determinou que seus descendentes conservassem.

Em 1940, Salvador de Madariaga aprofundou essa linha de interpretação em Vida del muy magnífico señor don Cristóbal Colón. Para o biógrafo espanhol, a origem conversa ajudava a compreender o silêncio do navegador sobre seu nascimento, sua proximidade com figuras conversas da corte e certas características de sua atuação pública.
Outro documento ocupa um lugar central nessa releitura. No prólogo do relato da primeira viagem, Colombo menciona que os Reis Católicos haviam expulsado os judeus de seus reinos. A expulsão não aparece, portanto, apenas como um contexto reconstruído posteriormente pelos historiadores. O próprio navegador a inscreveu na abertura do texto em que apresentou sua missão.
Nos últimos anos de sua vida, Colombo reuniu passagens bíblicas, comentários e reflexões no chamado Livro das Profecias. A obra revela um homem que não compreendia suas viagens apenas como resultado de mapas, cálculos ou ambições comerciais. Ele as situava dentro de um horizonte providencial, marcado pelas profecias de Isaías, pelas ilhas do Ocidente, pela reunião dos povos e, sobretudo, por Jerusalém.
Nenhum desses elementos precisa sustentar sozinho todo o peso da conclusão. Juntos, eles formam um conjunto que antecede em muitas décadas a investigação genética. O DNA não inventou os sinais encontrados nas cartas e nos livros. Ele lançou uma nova luz sobre documentos já conhecidos e deu maior consistência ao retrato histórico que emergia deles.
O ano de 1492 é geralmente lembrado por dois acontecimentos apresentados em capítulos separados: a expulsão dos judeus da Espanha e a chegada da expedição de Colombo às Américas. Na experiência daqueles que viveram o período, entretanto, esses acontecimentos pertenciam ao mesmo mundo.
O Decreto de Alhambra foi promulgado em 31 de março. Os judeus que recusassem a conversão deveriam abandonar os reinos de Castela e Aragão até o fim de julho. Em 3 de agosto, Colombo partiu. Em 12 de outubro, chegou a Guanahaní, nas Bahamas. Entre a ordem de expulsão e a travessia do Atlântico decorreram poucos meses, e o próprio diário do navegador colocou os dois acontecimentos na mesma moldura histórica.
O círculo que tornou a viagem possível também estava atravessado pela presença conversa. Luís de Santángel, descendente de judeus convertidos e funcionário da Coroa de Aragão, desempenhou um papel decisivo na defesa do projeto e na obtenção dos recursos necessários. Gabriel Sánchez, tesoureiro da Coroa, pertencia ao mesmo universo político e financeiro. Depois da primeira viagem, Colombo dirigiu a Santángel e a Sánchez relatos de suas descobertas.
A presença conversa chegou também ao interior da expedição. Luís de Torres foi escolhido como intérprete por conhecer hebraico, caldeu e árabe. O diário da primeira viagem o descreve como alguém que “havia sido judeu”. Como Colombo acreditava estar alcançando o Oriente, o conhecimento dessas línguas parecia útil para um possível encontro com os povos asiáticos.
A conexão entre a viagem e o destino dos judeus espanhóis levou Simon Wiesenthal a formular uma interpretação ainda mais abrangente. Em Sails of Hope: The Secret Mission of Christopher Columbus, ele leu a expedição como uma procura por novas terras capazes de oferecer esperança ou refúgio aos judeus perseguidos. Wiesenthal relacionou essa missão à expulsão de 1492, ao ambiente converso da corte e à leitura profética que Colombo fazia de sua própria trajetória.
A leitura de Wiesenthal vai além do que a genética pode demonstrar, mas revela a força da conexão histórica. Sob a perspectiva de um Colombo sefaradita, sua partida deixa de ser apenas contemporânea da expulsão. Ela passa a carregar também a memória de um povo lançado ao exílio.
Nas décadas seguintes, cristãos-novos atravessariam o Atlântico carregando consigo identidades, costumes e lembranças que precisavam permanecer ocultos. Essa história alcançaria também a Inquisição e a memória judaica apagada no Brasil, onde documentos inquisitoriais preservaram vestígios de vidas que a perseguição tentou silenciar.

A expressão “Colombo judeu” possui uma força evidente, mas precisa ser compreendida corretamente. Um exame genético pode oferecer informações sobre ascendência e procedência familiar. Ele não determina, sozinho, a fé, as práticas ou a consciência de uma pessoa que viveu há mais de cinco séculos.
Esse cuidado não esvazia a descoberta. Ao contrário, permite compreender o que ela realmente acrescenta. Os traços genéticos deram sustentação à origem judaica de Colombo no Mediterrâneo espanhol. Seus escritos, sua linguagem e seu círculo de relações mostram que essa conclusão se encaixa em um ambiente histórico concreto.
Na reportagem de Henrique Cymerman para a SIC Notícias, o historiador Claude Stuczynski, especialista em Inquisição e cristãos-novos da Universidade Bar-Ilan, recorda que ser judeu não é simplesmente uma questão de sangue. O judaísmo reúne religião, povo, cultura e história compartilhada, dimensões que não podem ser reduzidas a um marcador biológico.
Por isso, a investigação genética deve ser lida como uma porta para a história, não como uma nova forma de “pureza de sangue”. Ela nos convida a perguntar quais memórias familiares precisaram ser escondidas, quais sinais sobreviveram nos documentos e por que Colombo escolheu cercar suas origens de tanto silêncio.
Em 3 de agosto de 1492, as caravelas deixaram a costa espanhola enquanto o mundo sefaradita da Península era desfeito pela expulsão. Mais de cinco séculos depois, a origem do próprio navegador reúne o DNA, a linguagem e os documentos em uma imagem histórica extraordinária. A Espanha que expulsava seus judeus enviava ao Ocidente um homem cuja história familiar também remontava a Sefarad.